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«Eu não vivo na época da escravatura. Assim sendo, não percebo por que razão devo acatar ordens absurdas sem qualquer tipo de justificação ou recompensa. Não preciso, nem quero, viver sob a sombra de um tirano déspota que é inseguro ao ponto de abusar da sua situação privilegiada de poder.
A minha vida é só minha, não quero que me digam o que pensar, o que vestir ou como me comportar. Ter de trabalhar não deveria implicar ter que abdicar da possibilidade de produzir ideias próprias. Isso não é trabalho: é submissão ao ponto de obliteração mental.
Mas há algum tempo que decidi tomar as rédeas da minha vida. Já não tenho medo de dizer o que penso e de afirmar peremptoriamente que o senhor (que nem sequer digno desse epíteto é) não passa de uma criança que não cresceu. Uma criança mimada, egoísta e insegura.
Dantes sentia raiva de si, mas agora só sinto asco. E talvez uma certa pena. O senhor perdeu o seu rumo. E eu tracei o meu.»
Ana Luisa Cardoso
Curta-Metragem «Clepsidra»